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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2008

29.09.08

Pensamento e Poesia

categorias: Escritos

Pensamento e Poesia

(Ávila de Brito)

 

O Senhor, meu PENSAMENTO, e a sua Dama, a POESIA
Às vezes ambos se repletam,
Às vezes ela se esvazia.
Ele caminha a passo trôpego, concreto,
Ela flutua abstrata a dançar verso!
E perambula, o PENSAMENTO, pelo sórdido e o secreto
A POESIA o resgata inconverso!
E lado a lado eles retomam o seu trajeto...
Até que ele novamente se distrai em coisas vãs,
E vacila... e claudicante, um tropeção!
Ela o ampara e o afaga em suas cãs.
E se abstrai, também, com a mesma distração...
...pra transformar em desatino coisas sãs.

.....

Evoluídos ou adaptados

categorias: Atualidades

Há muitos que contestam a biologia evolutiva na forma pela qual ela hoje é aceita no meio científico, qual seja: sob a luz da Teoria da Evolução das Espécies por Seleção Natural.

Mas contestá-la pela afirmação - ou melhor, pela negação da afirmação - de que o homem tenha evoluído do macaco é um erro! Acontece que Darwin jamais disse isso, tampouco existe qualquer teoria baseada nesse argumento.

Outro erro comum é a afirmação de que "o homem é o mais evoluído dos animais"... Sim, trata-se de um grande equívoco, embora seja aceitável a afirmação de que o homem possa ser o mais complexo entre os animais, nunca o mais evoluído. Ainda assim, para se afirmar que o homem é o mais complexo, há que se referenciar tal complexidade ao sistema nervoso central, de fato o mais complexo entre os seres vivos. Mas no que se refere a outros sistemas fisiológicos, há espécies que nos deixam muito atrás em termos de complexidade. Senão vejamos os fantásticos mecanismos sensoriais dos tubarões, por exemplo; ou o  intrincadíssimo sistema digestivo dos cupins; ou o sofisticado e ainda pouco conhecido sistema de comunicação entre os golfinhos!

A propósito destes equívocos, comuns entre leigos e não-leigos, a  leitura do artigo que se segue pode ser aclaradora, além de nos brindar com uma bela conclusão... que até foge um pouquinho do tema. Mas, vamos ao artigo.

"EVOLUÍDOS OU ADAPTADOS?
Por IVAN DE CARVALHO SANTOS LIMA
Biólogo e editor da Folha Biológica

O homem não evoluiu a partir do macaco. E Charles Darwin também nunca disse isto. Se houvesse um processo “evolutivo” que transformasse chimpanzés em homens, seria lógico encontrar-se ainda hoje macacos se transformando em homens, ou “chimpanzomens” de várias categorias.
Ocorre que homens e macacos atuais descendem de um ancestral comum, que provavelmente era parecido com um...macaco. Mas tão diferente dos macacos atuais quanto esses próprios são entre si.
Conseguimos facilmente diferenciar um gorila de um chimpanzé, ou um orangotango de um sagui. Apenas nos achamos mais diferentes que os outros primatas. Provavelmente eles também pensam assim.
Apesar das diferenças entre as seqüências do código genético humano e do chimpanzé não ultrapassarem um centésimo do total, nos mostra que a “estrutura fundamental” é praticamente a mesma, porém adaptados a ambientes diferentes.
Fica muito difícil definir, entre as espécies da natureza, aquelas mais “evoluídas” de outras “menos evoluídas”, quando se percebe que EVOLUÍDO, como conceito , é bastante subjetivo e EVOLUÇÃO, como processo, não é retilíneo, mas ramificado, como uma árvore.
Porque se diz comumente que os animais são mais evoluídos que os vegetais?
Porque aqueles se aproximam mais do “ideal” , o ser humano. (Quanta modéstia...) Não somos mais ou menos evoluídos que os vegetais, apenas adaptados a ambientes diferentes, ou realizando as mesmas funções por mecanismos diferentes.
Se o conceito de evolução for regido por complexidade ou eficiência, os vegetais podem então ser considerados mais evoluídos que os animais pelo menos no aspecto da nutrição.
Além de a realizarem com uma eficiência inigualável, os vegetais são capazes de fabricar o próprio alimento, porque apresentam um aparato de substâncias químicas muito mais complexo que aquele utilizado por nós.
Torna-se preferível utilizar o termo “mais bem adaptado” a “mais evoluído” quando se quer Ter noção comparativa. Assim, automaticamente somos forçados a raciocinar; mais evoluído sob que aspecto? Mais bem adaptado em relação a que?
Os primatas são um fracasso como grupo quando comparados aos insetos. Estes últimos respondem por dois terços de todas as espécies de animais do planeta.
Conclusão: os insetos estão bem mais adaptados que os seres humanos. Menor tamanho significa maior quantidade de alimento disponível. Apêndices articulados e , na maioria das vezes, asas, significam agilidade. Produzem, com freqüência , centenas ou milhares de ovos, o que significa maior produção e maior capacidade de disseminação.
A evolução é acima de tudo um fenômeno mágico, fascinante e misterioso, pois desafia as leis que induzem à simplicidade para aquisição de estabilidade. Quanto mais simples , mais estável.
A nossa esperança é que todos acordemos para o fato de que a evolução não ocorre apenas no plano material. É necessário, atentar para a necessidade de evolução intelectual e moral, que se processam independentemente.
Haja vista que no plano político aquele indivíduo típico que se adapta perfeitamente a diversas situações, sofre mutações com facilidade para continuar sobrevivendo no meio, mas moralmente é troglodita.
Haja vista no plano humanitário aquele indivíduo que mal sabe traçar linhas, mas traça pensamentos de alto valor instrutivo para a alma.
Que sensação invadirá o coração de um hipotético último representante da espécie humana quando encontrar em um canto de mata intocada uma pequena população de “chimpanzomens” morando em cavernas , mas trazendo no olhar tudo aquilo que buscamos nesses anos todos ... a felicidade...?"

 

Sonetos de Ávila de Brito

categorias: Escritos

Soneto nº 5

(por Ávila de Brito)

 

Que me socorram os néscios básicos instintos
Vencer a dor do incerto e pálido existir
Para o calor decerto rútilo, retinto,
Ou de outras cores mais, do único porvir.

Que este temor cristão da próxima alvorada
Vá-se com o amor pagão de um lúcido crepúsculo;
Se o medo e a dor são antevésperas do nada,
A vida e a morte hão de ser súbitas, minúsculas.

Recorro à força no hipotálamo contida
Pelos favores dos fenômenos da espécie
E ergo em louvor a breve súplica da vida.

Eu sabedor do despropósito da inércia
Sob o pavor que aflige a súbita partida,
Brado em clamor a vera máxima lucrécia:


"Onde a morte está, eu não estou. Onde estou, a morte não está. Por que me preocupar?"


Trem de ferro

categorias: Escritos

Trem de Ferro

(Ávila de Brito)


O pequeno precisa erguer o bracinho franzino para alcançar a mão forte e calejada, dedos grossos, unhas toscas, no meio da qual a sua some com força. Olhinhos assustados brilhantes piscam aflitos de um lado ao outro, ciscando imagens demais ao incompleto entender infantil.

De vez em quando olha para cima, a argüir em silêncio um algo do pai; o homem, com a fleuma das estátuas, às vezes espia mudo embaixo, quase sem mover a cabeça.

De vez em quando olha para baixo: a malinha, com o farnel encima, a esperar, como ele...

A maioria das imagens as perderá para sempre, levadas pela correnteza da memória a desaguar no esquecimento. Mas algumas, um algum número delas, o menino haverá de tê-las para sempre, até o dia inevitável.

A imagem do pai, do corpanzil vestido de terno inédito e puído, um azul-marinho assomado enorme e inerte ao seu lado, será uma das indeléveis..., e das últimas que levará dele.

Lembrará também durante sempre o cheiro envolvente que, muito embora um ligeiro nauseante, trescala novidade, aventura inaudita. O odor, um misto de óleo e fumaça, haverá de evocar muitos déjà-vu.

Levará aturdidas memórias, e de uma, principal, nunca haverá de esquecer.

Na confusão da plataforma plangente descobre a menina em chitão caminhar na sua direção, de laços pareados na cabeça loura, um mais alto que o outro. Do adulto que a conduz só vê o antebraço, o mais não importa. A menina sardenta passa e olha para ele..., ‘Ou não?!’ , confunde-se. Quer falar ao pai, mas só pensa, e olha para cima: ‘Pai, eu gostei dela!...’, pensando, e os seus olhos perfeitos marejam, se os dela convergem vesgos, estrábicos, zarolhos...

 

Sentadinho à janela padece tanta saudade que nem consegue chorar. A cabecinha encostada na vidraça lembra muitas coisas; os olhinhos perdidos na plataforma enxergam nada.

Lembra da mãe. Sufoca o choro no peito muito perto ainda da garganta na sua anatomia infantil. Lembra de casa... Lembra da menina zarolha meio olhando pra ele com risinho sem graça nos lábios vermelhinhos, vermelhinhos!...

‘Piuííí!’ - o apito colhe a sua tristeza.

‘Piuíííii...’ - nasce súbito, cresce agudo e morre rouco.

Ao apito sucede um sacolejo seco e bruto, o primeiro, que faz o peito saltar de susto; o som agora é cadenciado, vagaroso, ritmado, acelera..., mais ligeiro, cadenciado, compassado, e acelera... Mais ligeiro, compassado, acelera, e acelera, e acelera...

A estação, qual o diorama do parquinho da quermesse, corre para trás, mais e mais veloz. O trem sai da estação. Casas, postes e gentes correm ligeiros de marcha à ré.

E ele chacoalha, e chacoalha, e balança para lá e para cá... E pensa na mãe. E chacoalha, e chacoalha... E pensa na menina zarolha, e cochila. Abre os olhos, e chacoalha, e balança, pestaneja... Sua mãe carrega ao colo a menina zarolha. E chacoalha, e cochila. Sua casa, seu terreiro, seu cão... E balança, abre os olhos, fecha os olhos. A menina zarolha na sua casa, com a sua mãe. E chacoalha, e balança...

E dorme, enfim.

 

Acorda estranho, passando por um lugar estranho. Pelas janelas do vagão correm ligeiras paisagens que não as suas...

Vai morar na casa da tia.

A mãe morreu há pouco.

O pai morrerá em breve.

Viajará outras vezes de trem.

A menina zarolha, jamais a verá novamente...

...

Série Excertos

categorias: Literatura

Excerto nº 5

Quando Nietzsche Chorou, Irvin D. Yalon

 

(De Nietzsche para o Dr. Breuer) "É isto (...) a principal fonte de sua angústia. Aquela pressão precordial... é porque seu tórax está explodindo de vida não vivida. O tique-taque do seu coração marca o tempo que se esvai. A avidez do tempo é eterna. O tempo devora e devora, sem dar nada de volta ( * ). Que terrível ouvi-lo dizer que viveu a vida que lhe foi atribuída! E que terrível encarar a morte sem jamais ter reinvidicado a liberdade, mesmo em todo o seu perigo!" (página 330)

(*) a não ser, talvez, a experiência e a sabedoria... 

 

O romance de Irvin D. Yalon é ágil e engenhoso, de leitura agradável e linguagem acessível, sem, contudo, freqüentar o comum.
Os dilemas de Breuer e Nietzsche são universais, conquanto alguns possam se nos revelar peculiares, familiares, íntimos até. O encontro fictício dos dois vultos históricos – com uma breve, porém indispensável intervenção de um terceiro expoente: o jovem Freud – há de conduzir o leitor a relativizar suas inquietações e, se assim houver de ser, verdades inspiradoras e libertadoras revelar-se-ão.
Corre-se o risco de que a obra desperte – como em mim despertou – uma curiosidade impulsiva, talvez com um traço de morbidez, pelo pensamento do controverso e às vezes hostilizado filósofo. Risco que, a propósito, recomendo que se corra.

Ávila de Brito