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"O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.
O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse "Legal!". Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando não gostam do presente ou não querem magoar o velho.
Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
- Como e que liga? - perguntou.
- Como, como é que liga? Não se liga.
O garoto procurou dentro do papel de embrulho.
- Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
- Não precisa manual de instrução.
- O que é que ela faz?
- Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.
- O quê?
- Controla, chuta...
- Ah, então é uma bola.
- Claro que é uma bola.
- Uma bola, bola. Uma bola mesmo.
- Você pensou que fosse o quê?
- Nada, não.
O garoto agradeceu, disse "Legal" de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.
O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
- Filho, olha.
O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos da tela.
O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada.
Talvez um manual de instrução fosse uma boa idéia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar."

criado por cabrals
13:26:25CHICO E MARIA
A história que eu conto agora
Que ouvi pr’esse mundo afora
Pois teve sua vez, sua hora
Nos tempos antigos de outrora
Morava, Francisco, na roça
Naquela pequena palhoça
Tinha uma lavra e uma choça
Um burro e uma carroça
Ali que Francisco vivia
Ao lado da sua Maria
Semeava, plantava e colhia
Da terra, o que bem lhe servia
Assim, em completa harmonia
Viviam , o Chico e a Maria
Em paz, com amor e alegria
Felizes, no seu dia-a-dia
Mas dizem que a felicidade
Não pode existir de verdade
Num mundo em que a realidade
Carece de amor e bondade
Pois eis que voltando da lida
Das bandas da Várzea Comprida
Chegou, o Chico, às escondidas
Saudoso da sua querida
Cansado, faminto e sedento
Ansioso por seu acalento,
Francisco, naquele momento
Contente, entrou porta adentro
E sob a luz da lamparina
Espiou através da cortina
Viu o vulto da sua menina
E alguém de feição masculina
Sentiu o seu sangue ferver
Nas veias o ódio a correr
Lastrando por todo seu ser
E os olhos velados, sem ver...
...da espádua veio a cartucheira
A pólvora, da algibeira
Chumbo, pavio, pederneira
Pronto!... Fez mira certeira
Dois crus estampidos troaram
Dois jatos de fogo voaram
Dois tiros precisos crivaram
Os dois infiéis, que tombaram
Três passos, o Chico vencera
Mas três outros retrocedera
Quando afinal percebera
Que a sua Maria morrera
Nos braços dela jazia
Um corpo que a vida esvaia
De alguém que ele já conhecia:
Era o irmão de Maria!
Francisco matara Vicente
O irmão que de há muito ausente
Maria abraçava contente
Por vê-lo, enfim, novamente!
(Ávila de Brito)
...
..
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criado por cabrals
21:23:01Eu queria ser um cisne
Pra poder ser branco e preto,
Para um dia ser dueto
Um sapo eu queria ser.
Queria ser pensamento
Ser leve, ser consistente
Do fruto, ser a semente
Da noite, o amanhecer.
Como eu queria ser gente!
Ser humano ou animal,
Criança ser novamente
Ser brisa e ser vendaval.
Se acaso eu fosse um maluco
Pra entender sobre os normais,
Pode ser que eu soubesse
Porque é que eu não sou mais...
Queria ser mameluco
Para eu ser meus ancestrais,
O frio ou o quente que aquece,
Mas morno, não ser jamais.
Queria ser rico e pobre
Ou, talvez, ser bom e mau,
Queria ser plebe e nobre
Ser quaresma e carnaval.
Eu queria ser poesia
Ser cantiga e trovador,
Ser Antônio, ser Maria,
Ser personagem e ator.
Eu queria ser um pente
Para afagar seu cabelo,
Ser um par de lábios quentes
Beijar seu rosto vermelho.
Para tê-la em meu regaço
Queria ser namorado,
Para senti-la em meus braços
Quisera eu ser amado...
Para não sentir passado
Eu queria ser presente,
No futuro, ser saudade
Que fere o peito da gente.
Quem sabe ser infinito!
Ser eterno..., imortal!
Ser o eco de um grito
Pelo espaço sideral...
Eu queria ser amor
Ser dúvida, ser vontade,
Mas eu quero de verdade
É não ser mais minha dor...
(Ávila de Brito)
...
..
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criado por cabrals
21:18:24A Luz!, poderosa que estronda no fulgor do trovão,
Não é apenas o frágil lampejo de um ágil clarão?
E o fogo fátuo que traça o horizonte distante,
É um brilhar que esboça um efêmero instante?
Luz que explode ofuscante: bomba assassina
Que pisca inocente no inseto inconstante
Um breve piscar: claridade incessante.
Fulgura e engana ou ilude e fascina:
É a química luz em néons coloridos
Mímica luz de espelhos e vidros.
Pingo de luz uma única estrela,
Os vapores do outro alvorecer.
Susto de luz! Vista primeira,
Viva luz a se evolar do ser.
Lâmpada, a luz claudicante:
Fluxo de elétrons errantes.
Crematório onde se esquece,
Forja ardente que constrói,
É o fogo quente que aquece,
E é a labareda que destrói!
Chama azul, rubra, amarela
Fósforo, enxofre, aquarela
Rebrilho, refluir de cores
Pigmento, textura, odores.
É branca nos faróis da rua
E prata: o reluzir da Lua.
Rutila uma ígnea fagulha:
Acende! e queima a tulha.
A centelha incandescente,
Risco da estrela cadente,
O farol dos meus Abrolhos
O fogo divino de Prometeu
Essa luz dos teus olhos,
Esta luz dos olhos teus.
Farol errante distante:
Aviso das rochas corais
Amores luz dos amantes
Lampos beijos amorais.
Brilho dos diamantes,
Das forjas ancestrais
Lanterna dos afogados
Brilhos apaixonados!
Luz branca ofuscante
Luz prata, brilhante
A luz do amanhecer:
Luz pálida cinzenta
Luz do entardecer:
Luz cálida magenta
Refulge e reflete
Fulgura, deflete,
Fulgor do Vulcão
Calor do carvão.
Conduz e engana
Acalma e excita
Abate e incita
Acende e apaga
Queima, afaga
Reluz e emana
O Arco-íris!
As Matrizes
Os Matizes
O prisma!
A flama,
A chama
Fulgor
Albor
Traço
Raio
Luz!
Luz
!!
!
As trevas?
São trevas...
Trevas apenas...
(Ávila de Brito)

criado por cabrals
21:08:07