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Terra Blog

Categoria: Escritos

02.12.08

Escolha

categorias: Escritos

(Por Ávila de Brito)

 

Vértice do V
Bifurcação
De um lado você
Do outro, solidão
Por aqui a mesma vida
Por ali, complicação
Minha paz comprometida
O risco da ilusão
À direita uma renúncia
Intersecção
Á esquerda o prenúncio
De uma nova emoção
A razão por esta via
Por aquela, o coração
Qual será o meu guia:
O AMOR ou a PAIXÃO?...


.\.\.\.\.\.

Janela

categorias: Escritos

(Por Ávila de Brito)

 

Da janela eu vejo esse mundo
Esplêndido ao amanhecer:
É um mundo grande e rotundo,
E é pródigo, lindo de ver!

É um mundo de sons e texturas,
De cheiros, de muitos sabores,
Que aos olhos das tais criaturas
Explode em milhares de cores.

É um mundo de mil sensações
Que ao homem comum (esse louco)
Se livre dos próprios grilhões
Os cinco sentidos são poucos.

No zênite do meio-dia -
Diáfana luz causticante -
Eu vejo o mesmo que via
Com cálido brilho vibrante.

A luz que agora invade
Minha escancarada janela
É arauto de mais uma tarde
E faz desta a tarde mais bela.

É Vésper que vem e se arrasta
No mesmo compasso das horas,
Tão bela que não já me basta
Por mais que ainda haja Auroras.

Esvai-se a tarde sublime
Vestida do rubro ao turquesa,
Nas almas sensíveis imprime
Nuances de pura beleza!

Eis o inevitável Ocaso
Que agora, encantado, eu vejo -
O mesmo que, por mero acaso,
Testemunhou nosso beijo.

Um beijo mais que apaixonado
No fim de uma tarde qualquer,
Afeto p’ra sempre lembrado
Por mais quantos dias houver.

Da mesma janela, sem medo,
Eu vejo o momento fugaz
Em que passa o carro de Fedo
E a última luz se desfaz...

A noite cai, soberana;
Alva, Selene levanta,
Da cúpula negra emana
Feérico brilho, que encanta.

Ao norte avista-se Stella,
No, sul impera o Cruzeiro;
Contemplo, da mesma janela,
O indefectível Luzeiro.

Já é alta noite de amantes
Reclusos em suas alcovas,
Vivos, intensos, vibrantes,
Libertos, em versos e trovas.

É noite amiga, aconchegante,
Guardiã da quietude do lar,
Velando preciosos instantes
Dos sonhos que devo sonhar.

Glacial, surge a madrugada
E banha de orvalho as flores;
Esfria, e a janela fechada
Sela os nossos amores.

No farfalhar do meu leito
Sua delícia me encanta,
Sinto seu corpo em meu peito
Enquanto o Sol se levanta.

Qual doce tal indecisão!,
Se o novo dia chegou:
Ou piso com meus pés no chão
Ou fico do jeito que estou?

Solene, Morfeu se despede,
Liberta-nos dos cobertores,
E o beijo na face me pede
Mais um novo dia de amores.

E eu abro, outra vez, a janela,
Respiro novo amanhecer
Vibrante como os olhos dela,
Glorioso! , como deve ser.

Da janela eu vejo esse mundo
Que o meu espírito acalma:
É um mundo que eu vejo profundo
pela janela da alma.

* * *

17.11.08

Paráfrase (ou "Eu tenho um sonho...")

categorias: Escritos

(por Ávila de Brito)

(Texto escrito após a Cerimônia de Encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim)

PARÁFRASE (ou "Eu tenho um sonho...")

Eu tenho um sonho!
E você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único...

Esse meu sonho é também o sonho de muitos: é o sonho da União, é o sonho da Paz.
E como muitos que acalentam o mesmo sonho, hoje eu o vi concretizar..., ainda que brevemente, ainda que nos limites do Ninho do Pássaro, no encerramento das Olimpíadas de Pequim.

E eu via as Bandeiras!
Bandeiras de muitas nações, de muitas cores, de muitas faces.
Bandeiras cujas arestas não denotavam fronteiras, mas sugeriam a sua junção num mosaico de culturas, e de raças, e de crenças, cujo limite é o da própria humanidade.

E eu via a Mistura!
E Misturavam-se faces tostadas com teses alvas, e olhos rasgados com íris azuis, e cabelos dourados com negras madeixas.
Misturavam-se sorrisos singelos de tamanha alvura nas faces negras sofridas, risos sinceros comedidos nos rostos brancos caucasianos, gargalhadas alegres incontidas nas caras morenas latinas... Todos eles, e cada um deles, expressões de franca alegria.
Misturavam-se Noruega e Bangladesh, a remota Islândia e o vizinho Paraguai, a China gigantesca e a Formosa diminuta, o Japão milenar e o novíssimo Timor.
Ladeavam-se Israel e Islã, russos e georgianos, indianos e paquistaneses, as duas Coréias – divididas por uma excrescência que separa irmãos num mundo onde não deveria haver fronteiras.
Ombreavam-se ricos e pobres, pequenos e grandes, rurais e agrários, Novo e Velho Mundos, todos entremeados sob a forma do símbolo de suas cores estampadas nos uniformes.

E eu via a União!
Todos na mesma cadência, todos na mesma direção, sob a mesma música e com a mesma alegria.
Cada um deles, com ou sem a simbologia da medalha, campeões consagrados ou competidores anônimos, todos sob o louro do sucesso, sob o signo do congraçamento!
Não havia Norte ou Sul, ou Leste e Oeste, Capitalismo ou Socialismo, Monarquia ou Democracia... Havia a sugestão da Unidade!
Havia a sugestão de que uma centelha saltaria do Fogo Sagrado para acender a Chama da União!

Mas o fogo se apaga...

...E cai o pano!

Volta-se às arestas do Mundo real, dividido, desigual.
Fica a sensação do fim de um abraço confraternal.

Fica, porém, a Esperança, enquanto a certeza não vem.
Fica a Esperança estampada pelas tantas cores e pela múltipla etnia das faces.
Esperança de que ainda é possível sonhar, de que ainda é possível pronunciar - pois não são ainda letra morta - estas abstrações: Compreensão, Inclusão, União e Paz...

Eu tenho um sonho; e você talvez diga que eu sou apenas um sonhador, mas eu sei que não sou o único...

 

30.10.08

Haikais

categorias: Escritos

 

Um cheiro de grama
Um charco!, e a terra encharcada
Da cheia reclama

 


Sopro frio do vento
Pruma a leve e branca pluma
Eleva-a ao relento

 

(Ávila de Brito)

29.10.08

Chico e Maria (um poeminha sertanejo)

categorias: Escritos

CHICO E MARIA


A história que eu conto agora
Que ouvi pr’esse mundo afora
Pois teve sua vez, sua hora
Nos tempos antigos de outrora

Morava, Francisco, na roça
Naquela pequena palhoça
Tinha uma lavra e uma choça
Um burro e uma carroça

Ali que Francisco vivia
Ao lado da sua Maria
Semeava, plantava e colhia
Da terra, o que bem lhe servia

Assim, em completa harmonia
Viviam , o Chico e a Maria
Em paz, com amor e alegria
Felizes, no seu dia-a-dia

Mas dizem que a felicidade
Não pode existir de verdade
Num mundo em que a realidade
Carece de amor e bondade

Pois eis que voltando da lida
Das bandas da Várzea Comprida
Chegou, o Chico, às escondidas
Saudoso da sua querida

Cansado, faminto e sedento
Ansioso por seu acalento,
Francisco, naquele momento
Contente, entrou porta adentro

E sob a luz da lamparina
Espiou através da cortina
Viu o vulto da sua menina
E alguém de feição masculina

Sentiu o seu sangue ferver
Nas veias o ódio a correr
Lastrando por todo seu ser
E os olhos velados, sem ver...

...da espádua veio a cartucheira
A pólvora, da algibeira
Chumbo, pavio, pederneira
Pronto!... Fez mira certeira

Dois crus estampidos troaram
Dois jatos de fogo voaram
Dois tiros precisos crivaram
Os dois infiéis, que tombaram

Três passos, o Chico vencera
Mas três outros retrocedera
Quando afinal percebera
Que a sua Maria morrera

Nos braços dela jazia
Um corpo que a vida esvaia
De alguém que ele já conhecia:
Era o irmão de Maria!

Francisco matara Vicente
O irmão que de há muito ausente
Maria abraçava contente
Por vê-lo, enfim, novamente!


(Ávila de Brito)

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