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30.12.08

Deus em Questão - O amor

categorias: , Literatura

 

O AMOR

O amor humano, quando levado aos seus extremos, tende a arrogar-se autoridade divina. Assim como o amor por uma mulher pode levar um homem a negligenciar a sua família, ou o amor a pátria pode conduzir a atrocidades inimagináveis, o amor à religião pode motivar – e tem motivado ao longo dos séculos – as pessoas a agirem mal.

Lewis diz que “se algum dia for escrito algum um livro que eu não hei de escrever, ele deverá ser a confissão da cristandade inteira acerca da contribuição específica da cristandade para a soma da crueldade e traição da humanidade... Nós gritamos o nome de Cristo e agimos a serviço de Moloque ”.

Mas, e quanto a este tipo de amor: “Amarás ao teu Deus de todo o teu coração e ao teu próximo como a ti mesmo”?

Não parece um mandamento pouco razoável, ainda que enunciado com tamanha solenidade? O mandamento não nos soaria retórico, sob a forma de palavras vazias, porquanto inexeqüíveis?

De fato, poucos são capazes de compreendê-lo, ou mesmo de aceitá-lo como válido, esse mandamento fundamental para o cristão.

Mas Lewis nos traz à luz para compreendê-lo na sua essência.

Inicialmente, ele explica que pode haver quatro tipos de amores:
Storge = afeição, assim como a familiar, seu melhor exemplo.
Philia = o sentimento de amizade, de afinidade, que une caminhantes da mesma jornada, pessoas com objetivos, opiniões, idéias e ideais semelhantes (a profunda amizade, cultivada com sinceridade e calcada no tempo, tende a converter-se em Storge).
Eros = o amor romântico e/ou sexual, que pode coexistir com as outras formas de amor.
Ágape = o amor perfeito de Deus e por Deus; o amor do mandamento.

Este, o mandamento que Freud reputava absurdo e dizia ser impossível cumprir, pois “nem todos os homens são dignos de amor”, ao contrário, muitos “têm mais direito à minha hostilidade, ou até mesmo ao meu ódio”. Dizia ainda que talvez entendesse tal mandamento se ele fosse “ama o teu próximo, como o teu próximo te ama”.

De fato, Ágape (o amor do mandamento) contradiz a natureza humana, violenta e agressiva por natureza, pois depende de uma natureza modificada: o “nascer de novo” espiritual preconizado pelas escrituras.
Lewis orienta que a chave para compreensão do mandamento é a expressão “como a mim mesmo”.
Não se trata de sentir afeição ou ternura (storge), ou de se ter afinidade (phylia) por todos e por qualquer um, da mesma forma que não possuímos exatamente sentimentos semelhantes por nós mesmos! O que sentimos por nós é um desejo de coisas boas, isto é, um desejo de que somente o que é bom e o que é bem estejam na nossa vida. “Não importa quanto eu possa desgostar da minha própria covardia e avareza (dos meus defeitos, em suma), continuo amando a mim mesmo (e desejando o bem para mim)”, escreve Lewis. Ágape é, portanto, um estado de vontade que temos para nós mesmos e que devemos aprender a ter para com os outros; é o desejo de fazer e querer o bem para todos e para qualquer um, do mesmo modo como queremos e fazemos para nós mesmos. Nesse tipo de amor – assim como no mandamento - não há mera poesia, ou falsa retórica, não são palavras vazias. Nele há atitude e postura: o exercício da verdadeira aceitação do outro com as suas imperfeições, a negação do nosso orgulho e das nossas vaidades, o suplantar da nossa natureza egoísta.
Mas se ainda assim o conceito do amor ao próximo nos pareça incoerente e ilusório, quando a consciência nos apresenta os outros como seres imortais - como de fato o são - tornar-se-ão, então, a coisa mais sagrada que possa ser apresentada aos nossos sentidos materiais. Dignos, portanto, do nosso amor incondicional.
Esta é a verdadeira e fundamental ética cristã!

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